segunda-feira, 4 de julho de 2011

Freud explica

Postado por Camilla Fernanda às 20:05 1 comentários
Como terminei com uma psicóloga por motivos fúteis - 


Gabito Nunes


Era um pouco orgulhosa. Mas na boa, quem não é? No primeiro encontro, jogando pipoca caramelada aos macacos, tropeçou deixando cair todo o saquinho no córrego que separava os visitantes da jaula. Ridiculamente gaga e corada, disse ser uma tradição judaica de alimentar cisnes peregrinos que usariam o caminho pra migrar ao sul do parque, no verão. Irredutível, todos os domingos atirava um pacote gigante de pipoca no laguinho verde musgo. Tropeçava até, dizia fazer parte do ritual. Só parou quando um guarda mirim descobriu o responsável pela mortandade de cisnes com alto colesterol ruim. Foi sua segunda passagem pela polícia.

Era um pouco romântica. Mas na boa, quem não é? Foi brabo, tive até de chamar um primo que trabalha no mercado de games publicitários pra explicar o conceito didático das animações de Walt Disney, sua maior fixação de amor. Certa noite, depois de me atirar prontuários e históricos de pacientes, jogou na minha cara que mesmo eu não a desejando mais, jamais ficaria só. Parece que o Pato Donald arrastava um bonde por ela. Ainda que convencida, algumas madrugadas a flagrei aos sussurros no telefone, marcando passeios românticos por cafés e cinemas de Patópolis.

Mas era o tipo de psicóloga que eu gostava. O tipo devassa. Ela tinha uma dissertação um tanto inusitada - "Círculos viciosos e a física quântica na psicologia: como dominar o mundo fazendo com que cada psicólogo tenha seu próprio psicólogo". Era um tanto confuso. Mas na boa, qual marco teórico não é? Tinha ali uma passagem afirmando que o sexo só era pecado na horizontal ou na vertical. Caso praticado na diagonal, ultrapassaria qualquer valor moral ou mandamento cristão. Usou tal argumentação com seu sobrinho nerd de treze anos. Ele esperava baixar um download e não a cueca. Fora sua primeira passagem pela polícia.

Era um pouco esquizofrênica. Mas na boa, quem não é? Numa segunda-feira vesperal, a apanhei pregando uma moldura psicodélica associando Lacan à Coca-Cola. Também comprou algumas latas de atum, um desentupidor de pia e um tapete com a inscrição: "Bem-vindo ao doce lar dos Silva", mesmo ela sendo uma Pereira desde criancinha. Justificou que não se casou pra morar num canto que lembrasse o esconderijo de um árabe homem-bomba. Quem fez o pedido, eu nunca soube. Tentei argumentar com a falta de uma aliança no dedo, mas era do tipo moderna. O médico mandou não contrariar. Eu contrariei. Ela tentou suicídio, se lançando da janela do térreo. Aí, o ortodontista mandou não contrariar. Concordei.

Era um pouco briguenta. Mas na boa, quem não é? Nada que vá além de me deixar em coma por uns bons meses primaveris por usar o sexo como arma. Possuía uma superexcitação só comparada a uma espécie fêmea de carrapato. Culpa minha, que só depois descobri o antídoto pra sua raiva. Nutella. Descoberta sua predileção pela sobremesa, abasteci os armários às vésperas de uma TPM que se anunciava no sotaque de Anthony Hopkins em "Silêncio dos Inocentes". Chorei imediatamente ao chegar em casa e me deparar logo na entrada com uma tropa de soldadinhos moldados com chocolate, apontando Big Mac's minimalistas na minha direção.

Passei a cogitar terminar em meados dela completar sua tese de doutorado. Algo tipo "Como controlar a densidade da massa com repressão psicológica cognitiva e uma colher de azeite de oliva: uma oposição às máximas do pensamento socrático sobre o nada". No dia de sua banca, o corpo docente ponderou seu trabalho por dezoito segundos antes de jogar amendoim salgado na coitada da coitadinha. Forçada a aceitar seu período sabático, preenchia seus dias de ócio com uma ideia inovadora: um livro de receitas/romance intitulado: "Mil e Uma Noites de Comidinhas Pra Beliscar Enquanto Planeja Colar O Pinto Do Seu Namorado No Pé Da Cama". Não vendeu muita coisa. Logo acabei.

Não é um pesadelo freudiano meu com psicólogas. Eu juro, aconteceu de verdade. Às vezes, a gente deixa de viver belas e parisienses histórias de amor arranjando essas listas pessoais de razões bobas e intimistas. Tudo pra não se envolver com pessoas que, a priori, não são tão bacanas e têm pouca didática pra nos convencer da paixão ofertada pela confluência do cosmos. Foi uma pena terminar com a psicóloga essa. Me confesso um pouco intolerante. Mas na boa, quem não é?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Lição do cinema N° 3

Postado por Camilla Fernanda às 01:33 1 comentários


Peter: Jacks, já pensou que esse lance de amor verdadeiro pode ser uma conspiração?


Jacks: Uma conspiração?


Peter: É. Uma conspiração capitalista. Uma mentira forjada pela indústria de filmes e da publicidade, da música... Todo mundo criando essa coisa, esse conceito que nem sequer existe.


Jacks: Amor verdadeiro não existe?


Peter: Olha pensa bem. Onde é que ele tá além das músicas, livros e filmes? Me fala! Quem pode realmente dizer : "eu sempre vou te amar" ?


Jacks: Withney Houston?


Peter: É, quando ela tá muito louca. O fato é que todo mundo tá infeliz porque todos procuram uma coisa que não existe. Ou então estão infelizes porque acham que tão confortáveis...




Filme: Amor e outros desastres

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Please, Sir, I want some MORE!

Postado por Camilla Fernanda às 12:15 0 comentários

[...] Mas deixa primeiro eu salvar a MINHA pele. Me deixa ser egoísta. Me deixa fazer você entender que eu gosto de mim e quero ser preservada. Me deixa de fora de suas mentiras e dessa conversa fiada. Eu sou uma espécie quase em extinção: eu acredito nas pessoas. E eu quase acredito em você. Não precisa gostar de mim se não quiser. Mas não me faça acreditar que é amor, caso seja apenas derivado. Não me diga nada. (Ou me diga tudo). Não me olhe assim, você diz tanta coisa com um olhar. E olhar mente, eu sei! E eu sei por que aprendi. Também sei mentir das formas mais perversas e doces possíveis. (Sabia?) Mas meu coração está rouco agora. GRAVE! Você percebe? Escuta só como ele bate. O tumtumtum não é mais o mesmo. Não quero dizer que o tempo passou, que você passou, que a ilusão acabou, apesar de tudo ser um pouco verdade. O problema não é esse. Eu não me contento com pouco. (Não mais). Eu tenho MUITO dentro de mim e não estou a fim de dar sem receber nada em troca. Essa coisa bonita de dar sem receber funciona muito bem em rezas, histórias de santos e demais evoluídos do planeta. Mas eu não moro em igreja, não sou santa, não evoluí até esse ponto e só vou te dar se você me der também. Pode rir, é isso mesmo. Não vou fingir ser o que não sou. Quer me tratar bem? Amém! Se não quiser, vá com Deus, não me procure mais!  


Fernanda Mello

Eu vou sentir tua falta e sempre vou guardar na memória  e no coração aquele dia que você cantou pra mim. Vou lembrar com carinho da "tradição" de comer duas vezes no mesmo lugar. Mas é só até aqui que eu posso ir. Até.

"Take a bite of my heart tonight"

sábado, 7 de maio de 2011

A pessoa que você tanto não procura

Postado por Camilla Fernanda às 00:36 3 comentários




"Ok, você pode negar o chamado, o acaso, a chance, o que for, mas depois que você passa a olhar a fisionomia da outra pessoa de uma forma diferente e ternurenta, é como se você atravessasse uma ponte retrátil...


Merda."




Gabito Nunes
texto completo aqui 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Toma um café...

Postado por Camilla Fernanda às 12:18 2 comentários

que o mundo já acabou faz tempo."

domingo, 27 de março de 2011

A vida é assim...

Postado por Camilla Fernanda às 01:23 2 comentários


"ao ver Mirabell se afastar, Ray Porter sentiu uma perda "Como é possível?", pensou ele, sofrer por uma mulher que ele manteve a distância. Para não sentir a falta dela quando ela fosse embora. Só então percebeu o quanto querer só uma parte dela, e não ela inteira fez os dois sofrerem. E como não podia justificar seus atos, exceto por a vida ser assim."
(Filme: Shopgirl [Garota da Vitrine])

quinta-feira, 24 de março de 2011

Uma exigência e uma impossibilidade

Postado por Camilla Fernanda às 02:41 1 comentários

"Eu sempre tivera certa dificuldade com Camilla, como se ela encerrasse ao mesmo tempo uma exigência e uma impossibilidade.[...]
Chegava em casa e quase não falava, esgueirava-se, imperceptível, a qualquer instante, como se temesse ser desmascarada. Fechada em seu quarto no final do corredor, como se esperasse que lá, em algum momento, alguma coisa aconteceria. Camilla parecia estar constantemente esperando alguma coisa, um aceno, uma carta, um sinal, alguém que chamasse o seu nome, Camilla[...]
Às vezes parecia jovem, quase impúbere, outras uma mulher vivida, precocemente desgastada. Talvez fosse um daqueles casos ambíguos de mulher feia em corpo de mulher bonita, ou gorda em corpo de magra, ou velha em corpo de jovem, talvez Camilla fosse tudo isso, e em momentos específicos, por exemplo, no crepúsculo e na alvorada, fosse possível presenciar essas transformações, em geral misteriosas, imperceptíveis." 
(Carola Saavedra in: Toda terça, Ed. Companhia das Letras)

domingo, 20 de março de 2011

Contrato

Postado por Camilla Fernanda às 21:10 1 comentários


"Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós.A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra... Mas a gente combinou que não era amor. 
Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso. Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado. Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar[...]o quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo. Não é amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre. E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor. E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo  “bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato”. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: NÃO EXISTE NINGUÉM AQUI DENTRO.  Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita."
TATI [DIVA] BERNARDI
 Bom, esse texto já teve muuuuuuuuito a ver comigo algum dia e ás vezes acho que ainda pode ter, maybe.  Apreciem.
 

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